quinta-feira, 7 de julho de 2011
quarta-feira, 6 de julho de 2011
terça-feira, 5 de julho de 2011
segunda-feira, 4 de julho de 2011
sábado, 2 de julho de 2011
RETRATOS CEIREIROS 1- Heróis Trágicos
Nos finais da década de 50, as condições de vida eram extremamente deficientes. Daí que muitas situações de pobreza material e/ou cultural contribuíssem para o aparecimento de pessoas típicas que, pelas suas anomalias, povoaram a nossa infância de crianças. A maioria "desapareceu" na década de 60. Ficaram a residir no Asilo de Viseu.A Carminda, mais conhecida por Xena, vivia no Carril e vinha todos os dias pela manhã desenriçar os seus longos cabelos, sentada junto do cruzeiro do Oitão. Passava parte do dia no forno a ajudar na lumieira (pequena fogueira à boca do forno que alumiava enquanto se metia o pão) e deitando farinha na pá (para o pão se não agarrar), mendigando uma bolinha. Muitas vezes me recordo vê-la a sacudir a farinha da "bola das forças" o que irritava a padeira, ainda sua prima. Morreu por volta de 1980 em Viseu.Os Titas eram personagens conhecidos em toda a região. Um deles, por ser mais perigoso, ficou internado em Viseu e creio que nunca mais voltou à Beselga. Ao contrário o irmão, depois de ser vestido e tratado aproveitava as saídas, a que estava autorizado, para ir tratar dos " inúmeros negócios" que a imaginação prodigiosa lhe granjeava. Dizia as coisas com um tal ar de seriedade, que éramos nós que nos interrogávamos sobre a possibilidade de realização das suas narrativas.- Conhecem aquela quinta no Douro...aquela mesmo ao pé da água e do camboio...? Chego lá e digo ó criado : que estás à espera, num vês que chegou o patrão? Quero uma sopinha e arranja o quarto da última vez. E era um ver se te avias...É verdade, o Tita não pedia. Trazia os bolsos cheios de papeis velhos. Rasgava um pedacinho, num ar de patrão poupado, riscava uns caracteres mais que egípcios, e intimava : tome lá, a casa passa a ser minha, já fiz a escrita em Penedono. Por tão pouco era dono do que queria...Quem nos dera a nós resolvermos os problemas com a simplicidade inconsciente do Tita...Mesmo ao lado de minha casa, moravam o João Fernandes e o Agostinho da Calçada. O primeiro mourejava o dia inteiro tentando destruir uma fraga com uma pedrita: num ritmo alentejano e com paciência africana o tunc!... tunc!... do gracioso calceteiro ecoava enquanto a Maria Jaquetas fazia na corda e a Lurdes e a Leonor entrançavam os tapetes de junça...O Agostinho era mais velho e tutelava o irmão. Um dia de madrugada aterrorizaram-me a infância quando deitaram o fogo à casa, altas horas da madrugada...Que bulício e que horror aquelas chamas!... Nem esgotando a fonte em correrias se conseguia apagar... Pouco tempo depois, uma ambulância dos Bombeiros de Penedono (acabadinhos de formar) conduzida pelo sr. Basílio Marques, veio buscar o João Fernandes.Também o Agostinho depois de rachar crânio ao Manel Jaquetas, desapareceu para Viseu.Mas para a canalhada tinham mais graça os que vinham de fora. O Cocó de Ferreirim chegava e tinha uma tropa fandanga em redor de si. Corríamos atrás dele de volta ao povo e quanto mais ele nos enxotava mais nós exultávamos alaridamente...Igualmente atractiva era a Ana das Coirelas. Com um pau enorme, zangada, abria a bocarra e gritava ensurdecedora um aaaaaaaaaaaaaaaah!... enquanto agitava tremulamente o polegar indicando o céu da boca aaaaaaaaaaaaah!...aaaaaaaaaah!...De certo modo, eram estes os heróis trágicos que animavam a infância, sem televisão jardim ou parque infantil. E por todas as nossas aldeias era igual o ar de folclore que eles emprestavam à monotonia do dia a dia duro desses tempos.
Mário Lourenço
Mário Lourenço
sexta-feira, 1 de julho de 2011
Subscrever:
Mensagens (Atom)






