A História das nossas comunidades locais tem aspectos típicos que são documentos valiosos sobre a melhor maneira de vencer as dificuldades da natureza. Em todas as nossas aldeias, sabe-se como era difícil, até há bem pouco tempo, arranjar dinheiro. Diversão era imprescindível e dava a mão à religiosidade. Na Beselga, desde tempos imemoriais, o forte cunho religioso aperfeiçoou um conjunto de fontes de receitas: os fornos de pão, a poia, as ofertas para arrematar (no fim da missa de Domingo). Cabe às gerações actuais imaginar outras fontes de receita, mas salvaguardar as que os nossos antepassados nos legaram.
Já por várias vezes tive oportunidade de enaltecer a organização de todo o processo económico que está inerente à festa da Beselga. Para uma necessidade vital – o fabrico do pão – os privados (Mecenas de que hoje tanto se fala...) fabricaram os fornos . Os quintaneiros (aqueles que tinham as quintas arrendadas) forneciam à semana as” gestas” e pilros necessários para aquecer o forno. Os forneiros eram os organizadores de todo o processo do fabrico do pão, assim se criando, até, vários empregos na aldeia.
Durante a semana, o forneiro “marcava a vez” aos interessados e ia vigiando a simultaneidade de todo o processo nas várias casas: ia mandar amassar, tender e vir para o forno. Ao mesmo tempo, ia aquecendo o forno, varria-o usando uma série de instrumentos que todos nós, ainda há bem pouco, víamos à entrada do forno, junto à pia : o vassoiro, o rodo, a pá...
Havia algo de solene naquele barracão. Por várias vezes ao dia , ali se operava o milagre da multiplicação dos pães. As pessoas iam conversando sob a autoridade da forneira, num ambiente prenhe de responsabilidade, na penumbra do ambiente , todos os olhares convergiam para a lumieira que ardia à boca do forno, esperando, numa ânsia natural, pelo parto do pão que encheria de fartura as martirizadas casas aldeãs. Não sei porquê, mas o forno sempre se me figurou como a gruta de Belém. Entrava-se da rua por um amontoado de carros de lenha. A porta de madeira esburacada tinha uma graça rude de artista primitivo. Abria-se para um interior escuro em que só se via o brilho do sol ou das estrelas por uma ou outra telha partida. À esquerda havia lenha mais seca para iniciar os rituais do aquecimento do forno. À direita jazia a pia que refrescava o vassoiro aflito do inferno de brasas e a que se encostava o rodo, a pá de meter/tirar o pão e um pau enorme que ajudava no governo dos tições. À direita e em frente havia umas bancas em madeira que sustentavam os tabuleiros rebordados de alvíssimos panais. E como santuário no centro de todas as atenções, ao fundo do lado esquerdo estava o forno. A boca do forno tinha todo o aspecto de um sacrário. Ao lado, qual lamparina do Santíssimo, ia ardendo uma chamazinha que daria direito a uma bola à pessoa que a ia aguentando acesa, durante todo este sagrado processo. Era esta pessoa que costumava deitar a farinha na pá para o pão não se pegar à ferra.
A farinha que em todo este processo abundava (na pá, nos panais, nos tabuleiros ou mesmo no chão escuro de terra empedrada) dava um níveo ar de pureza a todo este templo do deus pão.
No final, começavam as receitas. Todos os que coziam tinham que dar um pão de poia. Este contributo era distribuído em quatro partes iguais: para a dona do forno (a tal Mecenas), para o forneiro, para o quintaneiro e para o Senhor dos Passos. Estes pães do Senhor dos Passos eram trazidos para o adro, ao Domingo, pelo mordomo da festa responsável e era arrematado no final da missa. O dinheiro desta venda ficava para a festa.
Pode parecer que era pouco. Certamente, mas era um pé de meia que permitiu, ao longo dos anos de miséria, fazer com que a festa da Beselga nunca tivesse desaparecido. Por isso, o forno era um templo respeitado por todos: para lá se ia conversar, aí se faziam deliciosas ofertas, aqui vinham os que andavam de “volta ao povo” comer um triguinho quente com açúcar, aqui as criancinhas se deliciavam com as bolinhas...
Em 1999, o forno foi esquecido…destruído, vendido. Possivelmente a abundância de recursos fez esquecer este mealheiro centenário da festa da Beselga.
Com a morte destas instituições, se há sentimentos, dói a amputação e morre dentro de nós uma grande parte do passado. A Beselga ficou mais triste, mais pobre.
-Mário Lourenço
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
sábado, 20 de agosto de 2011
CONVÍVIO CEIREIRO -- DIA 27 DE AGOSTO
Convidam-se todos os sócios, simpatizantes e amigos do Grupo Cultural e Desportivo "Os Ceireiros" a comparecer, no dia 27 de Agosto, para mais um convívio ceireiro, em que será servido mais um porco no espeto.
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
A MINHA IDA PARA FRANÇA A SALTO!
Acabara o antigo “quinto ano”. Não havia bolsa de estudo. Impossível sacrificar os parcos recursos que teriam de dar para os nove irmãos. De França acenavam experiências de colegas da aldeia. Procurou-se “o passador”, regateou-se o preço, marcou-se a viagem para dia incerto a confirmar na noite da partida.
Na aldeia viviam-se os preparativos da festa: respiravam-se odores gulosos, estrelejavam foguetes, contemplava-se o levantamento dos gigantescos pinheiros que, no Domingo serviriam para luxuoso palco em que os mordomos arrematavam as prendas da festa. Eu era mordomo. Terminámos altas horas da noite. Caí na cama, exausto, mas feliz. E de súbito...
- Acorda ! Está ali o passador, ides já...
Tombavam, dolentes, três ou quatro badaladas do velho relógio da torre aldeã. De sacola na mão e a mala aviada à pressa, lá ia eu tentar a sorte. Mas que noite tão dolorosa, aquela sexta-feira da festa de 1970...
Éramos dez ...quinze? Já nem sei. Só me recordo que, na escuridão, pelos vidros enevoados, rolávamos entre fumos e chamas de fogos que devastavam as terras de Portugal que eu ia perdendo “com uma lágrima no canto do olho”.
- Além, ao pé daqueles carvalhos, passa uma estrada com areão avermelhado. Antes, há uma casota onde os “carabineiros” costumam estar, mas daqui, do lado de cá dos carrapotos eles não vos devem ver...logo que piseis a estrada, estais em Espanha. Seguis em direcção às casas e esperais no café, junto da estrada.
Era o raiar da manhã . Com o coração apertado, a angústia de quem pode receber um tiro, a cadeia iminente...olhávamos em todas as direcções, como aves assustadas, e nem sentíamos os pés pelos terrenos pedregosos. Um último salto e Fuentes à vista...Tudo correra aparentemente bem! Demorou a carrinha do passador. Agitado, levou as mãos à cabeça e fez-nos sinal para irmos a pé, pela estrada. Que se passava?!
- Entrem ! Rápido, fomos acusados por uns taxistas espanhóis e a polícia vem atrás de nós...E vocês põem-se à espera mesmo à frente do posto da polícia?!...
As imensas planícies castelhanas começavam a fugir velozmente ante os olhos ensonados! O passador continuava insistentemente a procurar a polícia no retrovisor e isso inquietava-nos. As cadeias em que meu pai (com o sr. Franquelim Ramalho, o sr Acácio Anciães e o cunhado, o sr Alberto…) estivera, iam-me sendo realidade à medida que íamos passando pelas placas: Ciudad Rodrigo, Salamanca, Valladolid, Burgos, Vitoria, S. Sebastian, Irun... Aquela noite do 1º sábado de Setembro de 1970 viera rápida. Mas agora... A Polícia faz-nos stop. Meu pai fora preso nesta zona, há três anos atrás. Desgraçadamente a história ia repetir-se?... O passador saiu para a noite. A polícia inspeccionava os documentos da carrinha... algumas pesetas passaram para a mão policial e... afinal, eram só as lâmpadas dos faróis que eram de cor diferente...
Mas em Irun os problemas agravaram-se. O passador propunha-me que eu atravessasse a fronteira na alfândega, descaradamente, fugindo à frente da Polícia... Não aceitei. Sabia os riscos que corria: meu pai fora preso e, além de demorar mais de um mês nas cadeias que o levaram de Irun até Vilar Formoso, viu-se envolvido num drama económico que afectava o numeroso agregado familiar. Meses sem ordenado, emprego perdido, novo pagamento (sempre chorudo) ao passador... Como poderia eu agora correr riscos desses?!... Porém, o passador ameaçava-me que tinha de ir já embora... Resisti, não tinha sido o combinado em Portugal. Depois de uma longa conversa, lá cedeu e foi-me entregar então, por vielas confusas, numa casa perdida num labirinto de ruas (que procurei fixar, desesperado). Disse-me que me entendesse com ela, a nova passadora, e desapareceu... No átrio da casa escura, térrea, discutimos um novo preço...Tive que entregar todo o dinheiro que tinha. Fechou-me num quarto e disse-me para estar acordado, logo que ela chamasse, dentro de algumas horas. Aguentei até às sete da manhã... E ela?... Desaparecera? Que faria eu a milhares de Quilómetros da minha aldeia e sem um tostão?!...Sonhava com o ambiente da festa que eu deixara, sem avisar ninguém... Era mordomo... toda a aldeia esperava com foguetes a banda de música ...
Não evitei, cheio de raiva, algumas lágrimas... Amaldiçoei Portugal... Que razões levavam os governantes a não nos deixar ir, legalmente, ganhar dinheiro para depois poder estudar?!... Como o raio de sol que me entrava no quarto, às onze horas senti um estrondo, agitação, correrias ... a passadora empurrou-me bruscamente para um carro que nos aguardava de porta aberta na rua estreita.
Parámos num jardim, nos arredores da alfândega. Com um postal de Irun, mostrou-me um muro alto que se erguia sobranceiro ao braço de mar e que se dirigia para junto de uma ponte. Antes da ponte, havia uma rede que cortava o muro. Era preciso saltá-la... Mas cuidado... a quinze/vinte metros estava a vigiar o guarda da alfândega. Íamos tentar passar na hora de rendição ao que percebi. Agora, astuciosamente, esperava um grito dela para iniciar a caminhada que conduzia à “terra prometida” - Hendaye, França!...
Esperámos várias horas desesperantes. De súbito, apareceu apressada, colocou-me um grupo de mais dez portugueses e atirou-lhes:
- Segui este, ele já sabe tudo...Eu vou com as bagagens esperar-vos do outro lado. Vá, vá...
Fiquei indeciso, mas nem tive tempo de reclamar. Como um relâmpago, ela desapareceu.
Um canzarrão atirou-se a nós no início do muro, mas foi mais o barulho, que podia despertar a polícia, do que o perigo de morder, estava acorrentado. De cócoras, abaixados entre a relva e o muro, não vi o guarda e saltei a rede separadora. Estávamos com o arco da ponte à vista. Gatinhámos pela relva até ao tabuleiro da ponte . O rosto esboçava um sorriso de alívio e...tantos guardas na ponte! Mas ela dissera que aqui já era França...Passámos a medo pelos primeiros que vinham em direcção a nós... Indiferentes, cruzaram-se connosco... Havia bem calados cá no fundo, gritos de júbilo! Ainda não queríamos crer! Dia da nossa festa do Senhor dos Passos!...
A passadora recolheu-nos do outro lado e deixou-nos na Estação dos Caminhos de Ferro. Nem dei conta que me roubara e me deixara sem os parcos haveres que levava no saco de viagem…Outra odisseia ia começar. A viagem até Chartres de comboio, a legalização, o trabalho. Mas já estávamos no paraíso dos francos e, com sacrifício e trabalho, as dificuldades de agora também teriam de ser vencidas!
- Mário Lourenço
Na aldeia viviam-se os preparativos da festa: respiravam-se odores gulosos, estrelejavam foguetes, contemplava-se o levantamento dos gigantescos pinheiros que, no Domingo serviriam para luxuoso palco em que os mordomos arrematavam as prendas da festa. Eu era mordomo. Terminámos altas horas da noite. Caí na cama, exausto, mas feliz. E de súbito...
- Acorda ! Está ali o passador, ides já...
Tombavam, dolentes, três ou quatro badaladas do velho relógio da torre aldeã. De sacola na mão e a mala aviada à pressa, lá ia eu tentar a sorte. Mas que noite tão dolorosa, aquela sexta-feira da festa de 1970...
Éramos dez ...quinze? Já nem sei. Só me recordo que, na escuridão, pelos vidros enevoados, rolávamos entre fumos e chamas de fogos que devastavam as terras de Portugal que eu ia perdendo “com uma lágrima no canto do olho”.
- Além, ao pé daqueles carvalhos, passa uma estrada com areão avermelhado. Antes, há uma casota onde os “carabineiros” costumam estar, mas daqui, do lado de cá dos carrapotos eles não vos devem ver...logo que piseis a estrada, estais em Espanha. Seguis em direcção às casas e esperais no café, junto da estrada.
Era o raiar da manhã . Com o coração apertado, a angústia de quem pode receber um tiro, a cadeia iminente...olhávamos em todas as direcções, como aves assustadas, e nem sentíamos os pés pelos terrenos pedregosos. Um último salto e Fuentes à vista...Tudo correra aparentemente bem! Demorou a carrinha do passador. Agitado, levou as mãos à cabeça e fez-nos sinal para irmos a pé, pela estrada. Que se passava?!
- Entrem ! Rápido, fomos acusados por uns taxistas espanhóis e a polícia vem atrás de nós...E vocês põem-se à espera mesmo à frente do posto da polícia?!...
As imensas planícies castelhanas começavam a fugir velozmente ante os olhos ensonados! O passador continuava insistentemente a procurar a polícia no retrovisor e isso inquietava-nos. As cadeias em que meu pai (com o sr. Franquelim Ramalho, o sr Acácio Anciães e o cunhado, o sr Alberto…) estivera, iam-me sendo realidade à medida que íamos passando pelas placas: Ciudad Rodrigo, Salamanca, Valladolid, Burgos, Vitoria, S. Sebastian, Irun... Aquela noite do 1º sábado de Setembro de 1970 viera rápida. Mas agora... A Polícia faz-nos stop. Meu pai fora preso nesta zona, há três anos atrás. Desgraçadamente a história ia repetir-se?... O passador saiu para a noite. A polícia inspeccionava os documentos da carrinha... algumas pesetas passaram para a mão policial e... afinal, eram só as lâmpadas dos faróis que eram de cor diferente...
Mas em Irun os problemas agravaram-se. O passador propunha-me que eu atravessasse a fronteira na alfândega, descaradamente, fugindo à frente da Polícia... Não aceitei. Sabia os riscos que corria: meu pai fora preso e, além de demorar mais de um mês nas cadeias que o levaram de Irun até Vilar Formoso, viu-se envolvido num drama económico que afectava o numeroso agregado familiar. Meses sem ordenado, emprego perdido, novo pagamento (sempre chorudo) ao passador... Como poderia eu agora correr riscos desses?!... Porém, o passador ameaçava-me que tinha de ir já embora... Resisti, não tinha sido o combinado em Portugal. Depois de uma longa conversa, lá cedeu e foi-me entregar então, por vielas confusas, numa casa perdida num labirinto de ruas (que procurei fixar, desesperado). Disse-me que me entendesse com ela, a nova passadora, e desapareceu... No átrio da casa escura, térrea, discutimos um novo preço...Tive que entregar todo o dinheiro que tinha. Fechou-me num quarto e disse-me para estar acordado, logo que ela chamasse, dentro de algumas horas. Aguentei até às sete da manhã... E ela?... Desaparecera? Que faria eu a milhares de Quilómetros da minha aldeia e sem um tostão?!...Sonhava com o ambiente da festa que eu deixara, sem avisar ninguém... Era mordomo... toda a aldeia esperava com foguetes a banda de música ...
Não evitei, cheio de raiva, algumas lágrimas... Amaldiçoei Portugal... Que razões levavam os governantes a não nos deixar ir, legalmente, ganhar dinheiro para depois poder estudar?!... Como o raio de sol que me entrava no quarto, às onze horas senti um estrondo, agitação, correrias ... a passadora empurrou-me bruscamente para um carro que nos aguardava de porta aberta na rua estreita.
Parámos num jardim, nos arredores da alfândega. Com um postal de Irun, mostrou-me um muro alto que se erguia sobranceiro ao braço de mar e que se dirigia para junto de uma ponte. Antes da ponte, havia uma rede que cortava o muro. Era preciso saltá-la... Mas cuidado... a quinze/vinte metros estava a vigiar o guarda da alfândega. Íamos tentar passar na hora de rendição ao que percebi. Agora, astuciosamente, esperava um grito dela para iniciar a caminhada que conduzia à “terra prometida” - Hendaye, França!...
Esperámos várias horas desesperantes. De súbito, apareceu apressada, colocou-me um grupo de mais dez portugueses e atirou-lhes:
- Segui este, ele já sabe tudo...Eu vou com as bagagens esperar-vos do outro lado. Vá, vá...
Fiquei indeciso, mas nem tive tempo de reclamar. Como um relâmpago, ela desapareceu.
Um canzarrão atirou-se a nós no início do muro, mas foi mais o barulho, que podia despertar a polícia, do que o perigo de morder, estava acorrentado. De cócoras, abaixados entre a relva e o muro, não vi o guarda e saltei a rede separadora. Estávamos com o arco da ponte à vista. Gatinhámos pela relva até ao tabuleiro da ponte . O rosto esboçava um sorriso de alívio e...tantos guardas na ponte! Mas ela dissera que aqui já era França...Passámos a medo pelos primeiros que vinham em direcção a nós... Indiferentes, cruzaram-se connosco... Havia bem calados cá no fundo, gritos de júbilo! Ainda não queríamos crer! Dia da nossa festa do Senhor dos Passos!...
A passadora recolheu-nos do outro lado e deixou-nos na Estação dos Caminhos de Ferro. Nem dei conta que me roubara e me deixara sem os parcos haveres que levava no saco de viagem…Outra odisseia ia começar. A viagem até Chartres de comboio, a legalização, o trabalho. Mas já estávamos no paraíso dos francos e, com sacrifício e trabalho, as dificuldades de agora também teriam de ser vencidas!
- Mário Lourenço
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
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